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Jorge Eduardo S. Durão é diretor-geral
da Abong e diretor-executivo da Fase (Federação de
Órgãos para Assistência Social e Educacional).
A confusão acerca dos projetos políticos em torno
dos quais se alinham as diferentes forças da sociedade civil
organizada chegou já a um tal ponto que se torna difícil
decifrar o significado político da manifestação
do dia (16/08), de cerca de 10 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios,
em Brasília. Para uns, constituiu o “primeiro grande
ato em defesa do mandato de Lula” (um ato “chapa branca”)
, enquanto que, para outros, se tratou de uma manifestação
totalmente autônoma em relação ao governo.
Para algumas das entidades que organizaram a manifestação
– como a CUT, a UNE e a Ubes –, não haveria nenhuma
contradição em se elegerem simultaneamente como bandeiras
da manifestação o combate à política
econômica, a luta contra a corrupção e a defesa
do governo Lula. Não haveria nenhuma contradição
em se postular a priori a palavra de ordem “apuração
sim, impeachment não”, como se a exigência de
completa apuração do esquema de corrupção,
que compromete o funcionamento das instituições democráticas
e os valores republicanos, fosse compatível com a blindagem
a priori de qualquer autoridade.
Para alguns desses dirigentes, a equação
política é simples: a alternativa a Lula é
“a volta da direita ao poder”, que deve ser evitada
a todo custo. Os autores desses raciocínios, tão sensíveis
aos ataques da direita ao estilo ACM e PFL, parecem não se
deixar abalar pela constatação de que está
em curso uma blindagem do governo, capitaneada também por
próceres da direita como o senador José Sarney e o
folclórico Severino Cavalcanti.
Constata-se a coincidência dos discursos de
João Felício (presidente da CUT) e de José
Sarney: para ambos, o presidente Lula é um símbolo
da chegada ao poder das bases populares a ser preservado dos impactos
da presente crise política. Chegamos à assombrosa
situação em que o oligarca do Maranhão sai
à frente na defesa da esquerda que chegou ao poder com Lula
– “equilibrada e responsável” –,
que, na sua opinião, “custou a conquistar espaços
e não se pode pensar em bani-la da vida política por
causa da falta de caráter e valores morais de algumas pessoas”.
Outro sinal desse qüiproquó político
é a total rejeição pelos banqueiros, representados
pelo presidente da Febraban, Marcio Cypriano (Bradesco), da hipótese
de processo contra presidente Lula. Na opinião de Cypriano,
“só há boas notícias na economia, e ela
está acima da turbulência política”. Tendo
tido no primeiro semestre de 2005 os maiores lucros dos últimos
cinco anos, os bancos não têm mesmo motivos para quererem
a desestabilização do governo Lula.
Tudo isso evidencia a perda de referências
básicas na vida política brasileira. Os movimentos
sociais e as organizações da sociedade civil, que
lutam há décadas para mudar estruturalmente a sociedade
brasileira – a mais injusta e desigual do mundo –, têm
algo mais importante a fazer do que disputar o prêmio da incoerência
política com os aliados conservadores e oportunistas do governo
Lula ou com a direita neoliberal fantasiada de defensores da moralidade,
representada pelo bloco PSDB / PFL. É preciso escapar da
armadilha mortal montada pelos líderes políticos “geniais”
que montaram um esquema de corrupção para financiar
partidos e políticos da direita, a fim de que eles sustentassem
a mesma política da direita.
João Pedro Stédile, dirigente do Movimento
dos Sem Terra, tem chamado a atenção, nos seus mais
recentes pronunciamentos, para a falta de um projeto político
claro para a sociedade brasileira. As ONGs têm dito o mesmo
desde o início do governo Lula. Sem projetos de mudança
que norteiem o debate político, não será possível
superar a confusão política em que mergulhou o chamado
campo popular e democrático.
Reconheço que não é fácil
enfrentar os desafios da presente crise política. O dilema
de encontrar o caminho certo, para não desprezar o sonho
nem ignorar a realidade, está sendo enfrentado pelos mais
diferentes movimentos sociais, organizações populares,
sindicatos e ONGs. Mas não devem ignorar que há algo
muito mais importante no longo prazo do que o destino do governo
Lula. Há todo um processo de construção de
décadas dos sujeitos coletivos da transformação
social e de suas organizações.
A História julgará aqueles que não
subordinaram os seus projetos pessoais de poder à relevância
histórica de um investimento coletivo de décadas,
construído tijolo por tijolo por antigos e por novos movimentos
sociais. Cabe aos dirigentes e militantes da sociedade civil organizada,
do campo popular e democrático, a responsabilidade de levar
às últimas conseqüências não apenas
o seu compromisso com a ética na política, mas sobretudo
o compromisso básico com as mudanças prometidas por
Lula, em quatro eleições sucessivas, e que foram relegadas
por seu governo à lata de lixo da História.
Para isso, o primeiro passo é reconhecer a
derrota que representou para nós o governo Lula, com impeachment
ou sem impeachment, e até mesmo na hipótese de reeleição
do presidente, carismático, mas capturado pela direita. Nesse
sentido, considero muito importante a recente tomada de posição
da Associação Brasileira de ONGs, reconhecendo o esgotamento
do governo Lula como encarnação de um projeto de transformação
social.
Segundo a Abong, “torna-se inevitável
o reconhecimento de que um ciclo de mais de 20 anos de lutas dos
movimentos sociais e de organização da sociedade civil
brasileira, em cujo horizonte se encontra um projeto democrático
de transformação social, voltado para a redução
das desigualdades e para a justiça social, não encontrou
a sua tradução adequada num projeto de governo. Frustraram-se
as esperanças de milhões de cidadãs e cidadãos,
que apostaram num projeto político de mudança. O governo
Lula deu continuidade a políticas – principalmente
a política econômica – que aprofundam a concentração
de riqueza e de poder”.
Os movimentos sociais e organizações
da sociedade civil não podem abrir mão da sua parcela
de responsabilidade na determinação da extensão
da tragédia política que se abateu sobre o povo brasileiro.
O aprofundamento ou a superação da crise num prazo
relativamente curto dependerá da capacidade que for demonstrada,
nos próximos dias e meses, pelas instituições
políticas e pela própria sociedade civil, de assegurarem
a recuperação da credibilidade da vida pública
no país, instaurando o primado da Ética na política,
reformando radicalmente o sistema político brasileiro de
modo a restaurar a sua legitimidade, e resgatando na prática
o princípio da soberania popular.
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