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8 de Março, dia em que no mundo se reafirma:
as mulheres também são sujeito de direitos; precisam
de maior atenção das políticas públicas;
de respeito e de maior proteção dos Estados Nacionais.
8 de Março é também mais um
dia em que, no mundo todo, mulheres são espancadas, estupradas,
mortas, desrespeitadas e destituídas de direitos.
Esse fardo ainda carregamos, apesar das inúmeras
conquistas dos movimentos de mulheres.
Em que questões precisamos intervir para
que os direitos humanos das mulheres sejam reconhecidos, efetivados
e respeitados?
Um primeiro elemento a ser considerado para acumularmos
forças e vitórias nessa perspectiva é a compreensão
do impacto das políticas de ajuste estrutural sobre as mulheres.
Afetando a economia, o mercado de trabalho, saúde, educação,
sistema judiciário e todas as outras esferas da vida cotidiana
dentro e fora da casa, a produção e a reprodução,
o Ajuste Estrutural desajusta a vida das mulheres.
Um segundo elemento a ser considerado é que
as consequências do ajuste não são iguais para
todas as mulheres. As que mais sofrem são as pobres, as negras,
as jovens e mulheres com outros tipos de vulnerabilidades.
Qual seria uma primeira explicação?
É que as políticas de ajuste se apóiam nas
desigualdades de gênero, originárias do sistema do
capital e do patriarcado. A força de trabalho das mulheres
é usada e explorada tanto na definição de políticas
como na elaboração dos chamados “projetos de
desenvolvimento”.
Essas políticas, definidas por instituições
internacionais, vêm sendo colocadas em prática há
mais de 50 anos, com apoio dos governos e das elites de cada país.
É preciso estancar a interiorização
dessas políticas e denunciar nosso estranhamento a elas.
Há quase 100 anos da 1ª manifestação
do movimento de mulheres por direitos, se mantém ignorada
a necessidade de incorporação da mulher nos processos
de desenvolvimento, tanto para saldar uma enorme dívida de
gênero, raça e classe, como para se reconstruir uma
visão de desenvolvimento que rompa com a estrutura de subordinação
e dominação arraigada na nossa cultura – o Patriarcado.
Nos últimos anos, outro tema veio se somar
à agenda de debates do movimento de mulheres: os Acordos
Comerciais, a ALCA, o Livre Comércio.
O que isso tem a ver com as mulheres? Difícil
de entender, não seria melhor deixar esse tema para a agenda
dos homens e apenas assinarmos embaixo? Nada disso! O tema tem tudo
a ver com as mulheres. Não é difícil; é
desconhecido. Não podemos avalizar decisões que podem
comprometer ou atrasar mais ainda, nosso desejo de conquistar direitos.
O livre comércio é uma forma de organização
da economia com regras definidas sem que a sociedade civil tenha
qualquer tipo de participação. Essas regras têm
levado o País a perder cada vez mais o controle sobre sua
produção, seu consumo e preços. É esse
o ponto de ligação com as mulheres, porque é
nessas questões que as mulheres são submetidas a toda
forma de opressão, desigualdade e subordinação.
Quando elas trabalham fora de casa, essas condições
se refletem: no tipo de trabalho, no lugar, na remuneração,
nas condições físicas e ambientais, nas garantias,
nos direitos. Quando trabalham no espaço doméstico,
as condições se refletem em seu maior estado de pobreza,
na relação com seu corpo, na sua valorização
como pessoa e cidadã e na visibilidade e valor dados ao seu
trabalho.
Sendo as mulheres as grandes responsáveis
pela reprodução social, a liberalização
ampla de serviços proposta nos acordos da ALCA e nas regras
da Organização Mundial do Comércio e as tentativas
dos países ricos de imporem condições desiguais,
irão afetar mais violentamente a relação das
mulheres com o acesso à água, a alimentos seguros
e nutritivos e com o saneamento. É esse o elemento potencializador
da injustiça de gênero, pois quem tem os meios de produção
e o poder para decidir sobre o que produzir, é quem determina
o que será consumido.
Em julho de 2004, realizou-se a 1ª Conferência
Nacional de Políticas para as Mulheres, cujos resultados
podem ser utilizados como instrumentos de organização,
luta e pressão do movimento de mulheres junto ao governo
federal, governos estaduais e municipais.
Em outubro do mesmo ano, a Marcha Mundial de Mulheres lançou
a Carta das Mulheres para a Humanidade, um instrumento que traduz
valores, concepções, diretrizes, perspectivas sobre
o que queremos como modo de viver e de estar no mundo.
Some-se a isso algumas conquistas do movimento já
em prática no governo Lula, relativas à superação
da violência contra a mulher, ao aborto, ao crédito
e à raça.
Mas não podemos negligenciar. Não
se muda a rota dos bons ventos. A eleição do novo
Presidente da Câmara dos Deputados e sua relação
ainda mais fisiológica e despolitizada com as bancadas, desde
a federal até a municipal, pode signifcar um grande retrocesso
para a luta das mulheres. Por outro lado, o poder Executivo cada
vez mais retira do Parlamento sua função legisladora,
através do mecanismo das Medidas Provisórias.
Podemos ter um 8 de Março sombrio ou cheio
de boas perspectivas. Depende muito da nossa consciência,
do nosso sentimento de coletividade e da nossa abertura para construir
processos no nosso campo tão diverso e com outros movimentos
e organizações da sociedade civil.
Por que não, um 8 de Março Vermelho?
Símbolo da aliança firmada pela guerreira Dorothy
com as populações das áreas de conflito do
Pará?
Fortaleza, 22 de fevereiro de 2005
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