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Esse primeiro semestre
de 2009 foi no mínimo surpreendente para todas as regiões
do Brasil que vêm sofrendo as consequências de fenômenos
naturais. Seca no Sul e Sudeste, enchentes no Norte e Nordeste. A
agudização do problema nos demanda uma reflexão
para além do que é preciso fazer nesse momento: o que
está por trás de tanta calamidade?
No
Ceará, os números são de causar tristeza e
indignação. Dos 184 municípios atingidos pelas
chuvas, 86 já decretaram emergência, contabilizando 699
casas destruídas e 6.647, danificadas. Subiu para dezoito o
número de mortes registradas por causa das enchentes. Além
disso, a Defesa Civil também contabilizou 200.002 pessoas
prejudicadas. O número dos que perderam suas casas saltou de
14 mil no
dia 19 de abril para 26.133 e aquelas pessoas que estão desalojadas somam
41.192 em 106 municípios atingidos, (dados do último
dia 29/05/2009).
Faltam abrigos
adequados, água potável, alimentação, uma
rede e/ou cama para dormir (sendo as crianças as mais
prejudicadas). As perdas agrícolas variam de 50 a 100% nas
regiões mais atingidas, principalmente nas áreas de
consórcio. No caso do feijão, a perda é
praticamente total. O agricultor/a ainda tem uma fezinha de que o sol
vai se abrir para poder virar o milho e salvar a espiga que ainda
está no pé. As previsões da metereologia
indicam que ainda vem muita água por aí. Estradas
destruídas, pontes quebradas, barragens arrombadas, outras na
iminência de arrombar... No que se refere às perdas de
safra, o seguro-safra não responde, em vista da limitação
de seus critérios. A questão que se coloca é:
qual a responsabilidade do governo nesses casos, uma vez que nessa
situação o ideal seria a efetivação de
um programa de reestruturação das propriedades dos
agricultores/as familiares, sem condicionalidades.
Muita gente tem se
mobilizado em solidariedade: cidadãos e cidadãs de
todos os cantos desse Ceará. As demandas chegam para todos os
segmentos da sociedade: governo federal, estadual, municipal,
Cooperação Internacional, pastorais sociais e ONGs.
Esse é o quadro
geral e real do Ceará, que traduz a situação
vivida nos municípios onde o ESPLAR está trabalhando em
2009: Massapê, Sobral, Forquilha, Santana do Acaraú,
Canindé, Choró, Quixadá, Quixeramobim, Nova
Russas, Acarape, Aracoiaba, Aratuba, Barreira, Baturité,
Beberibe, Canindé, Caridade, Cascavel, Chorozinho, Ocara,
Paramoti, Redenção, Senador Pompeu, Quixeramobim e Nova
Russas.
Essa
também é a realidade para quem vive no semi-árido
cearense, com anos de inverno regular, anos de seca, anos com inverno pesado. O semiárido é
assim: com uma biodiversidade fantástica, mas com muitas
irregularidades do ponto de vista ambiental e a tendência é
que tanto as épocas “secas” como o período
de chuvas se intensifiquem.
O
ano de 2009 vai ficar na memória de muitos/as que nunca viram
ou viveram essa dramática situação. Algumas
pessoas, principalmente as mais velhas, certamente irão
relembrar fatos iguais ocorridos nas décadas de 1950 e 1970.
Os ciclos se repetem, e não se tem como adivinhar ou prever
como será o ano seguinte. “Um bom inverno” - esta
foi a previsão dos Profetas da chuva, reunidos no dia 10/01/09
em Quixadá. São homens simples do sertão que
observam a natureza para fazer previsões climáticas
(não há mulheres nesse grupo; por que será?).
Os cientistas do clima emitiram 10 dias depois dos profetas, um
parecer que confirmava a previsão dos agricultores. Ambos
acertaram - agricultores com seu conhecimento popular e os
cientistas com sua tecnologia incrível - só não
conseguiram prever a intensidade das chuvas. “ O
sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão,
já diziam Sá e Guarabira. Àquela época
eles já nos alertavam, através de sua música,
sobre as consequências danosas da destruição da
natureza. Era a resposta ao que se chama hoje “Câmbios
Climáticos”, cuja discussão nas esferas de poder
dos países centrais, não chega a considerar suas
razões, ficando na proposição de medidas
mitigatórias para não ameaçar o modelo de
produção e consumo.
Uma coisa todo mundo tem
que entender: aqui no semi árido, onde moramos, sempre vai ser
assim, os solos são rasos, as plantas têm muitos
espinhos, uma parte do ano vai chover e na maior parte do ano vai
fazer sol. E nesse cenário, se perguntarmos a um/a
agricultor/a, se já brocou, se já queimou alguma vez
na vida, se já plantou morro abaixo, se alguma vez cortou o
mato da beira dos riachos e rios ou mesmo perto dos olhos d'águas
nas serras... com certeza a maioria dirá que já. Mas,
se perguntarmos às mesmas pessoas: quem já replantou
uma área onde brocou ou queimou ou mesmo replantou à
beira de um rio ou riacho ; quem teve o cuidado de plantar em curva
de nível, quem teve cuidado em zelar a nascente do riacho, de
não jogar lixo no córrego... a maioria vai dizer que
não! Pois é, essa forma de usar a natureza, juntamente
com o padrão de consumo que as pessoas da cidade querem manter
e que as do campo são seduzidas a seguir, é o que vem
contribuindo para que os fenômenos da natureza produzam
estragos piores e maiores do que realmente aconteceria, caso a
degradação ambiental não estivesse chegando ao
seu limite.
Embora as enchentes
atinjam todos/as, o segmento mais afetado - agricultores/as
familiares, certamente terá muito mais dificuldade de se
recuperar, se comparado a empresários, patrões,
latifundiários e o setor do agronegócio, dada a forma
desigual como tanto as políticas agrícolas são
aplicadas para aqueles segmentos como a dimensão do “socorro
financeiro” por parte dos poderes públicos e setor
privado para um e outro.
Por tudo isso, esse é
também um momento de pressionar e acompanhar as ações
do governo para aquele setor responsável pela produção
de mais de 50% dos alimentos que chega à mesa de
brasileiros/as.
Está na hora de
acordar para os perigos das mudanças climáticas. O
momento agora é evitar que os setores do agronegócio e
os agricultores/as que ainda não despertaram para a
agroecologia, se beneficiem da natureza, alterando o ambiente natural
de forma irresponsável e inconseqüente, manipulando o
curso natural das águas, desmatando, assoreando os rios,
queimando, usando agrotóxicos, desperdiçando e jogando
grande quantidade de lixo no ambiente. Tudo isso tem um retorno para
todos/as nós. A natureza vai estar dando e continuará a
dar sua resposta a esses desmandos. A sobrevivência, não
só das populações no presente mas das gerações
futuras está colocada em altíssimo risco.
Certa
vez, num dos cursos de capacitação em consórcios
agroecológicos um agricultor de Massapê, depois de
prestar bastante atenção na explicação
sobre conservação dos recursos naturais, pediu para
falar e com muita simplicidade disse: “é isso mesmo, o
senhor está certo, eu comparo isso tudo como uma situação:
a natureza é uma cadela cheia de pulgas, nós somos as
pulgas e quando começam a incomodar, a coçar, a
mordê-la, ela se sacode, ela se vira, se roça no chão
e tira aquilo que está incomodando”.
Creio que se nos encontrarmos outra vez, ele provavelmente dirá:
“É, a cadela está sacudindo as pulgas que vêm
lhe maltratando há tempos”.
O planeta se sacode, a
caatinga agoniza. Quem sobreviver, que legado deixará para as
gerações futuras?
São grandes os
desafios, principalmente para nós do ESPLAR, uma das mais
antigas ONG do semiárido cearense que nesse mês completa
35 anos de existência, de resistência e luta por uma
sociedade justa e igualitária. São 35 anos de aposta na
agroecologia, disseminando, através de inúmeros
agricultores/as familiares, práticas que apontam para
maiores possibilidades de se viver com dignidade, em ambientes mais
estáveis, em um semiárido sustentável.
Em tempos de muita
capitulação e pouco desassossego, a longa trajetória
de enfrentamentos e conquistas dos movimentos e organizações
da sociedade civil em que o Esplar fez-se presente, deve ser para
nós, a força impulsionadora, capaz de nos lançar
no desafio da sustentabilidade para a nossa região.
Fortaleza, 1º
de junho de 2009
Ronildo
Mastroianni Ferreira da Silva
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