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Contra Fatos não há Argumentos
Por SILVA, Ronildo Mastroianni Ferreira da1. 1º jun. 2009.

Esse primeiro semestre de 2009 foi no mínimo surpreendente para todas as regiões do Brasil que vêm sofrendo as consequências de fenômenos naturais. Seca no Sul e Sudeste, enchentes no Norte e Nordeste. A agudização do problema nos demanda uma reflexão para além do que é preciso fazer nesse momento: o que está por trás de tanta calamidade?

No Ceará, os números são de causar tristeza e indignação. Dos 184 municípios atingidos pelas chuvas, 86 já decretaram emergência, contabilizando 699 casas destruídas e 6.647, danificadas. Subiu para dezoito o número de mortes registradas por causa das enchentes. Além disso, a Defesa Civil também contabilizou 200.002 pessoas prejudicadas. O número dos que perderam suas casas saltou de 14 mil no dia 19 de abril para 26.133 e aquelas pessoas que estão desalojadas somam 41.192 em 106 municípios atingidos, (dados do último dia 29/05/2009).

Faltam abrigos adequados, água potável, alimentação, uma rede e/ou cama para dormir (sendo as crianças as mais prejudicadas). As perdas agrícolas variam de 50 a 100% nas regiões mais atingidas, principalmente nas áreas de consórcio. No caso do feijão, a perda é praticamente total. O agricultor/a ainda tem uma fezinha de que o sol vai se abrir para poder virar o milho e salvar a espiga que ainda está no pé. As previsões da metereologia indicam que ainda vem muita água por aí. Estradas destruídas, pontes quebradas, barragens arrombadas, outras na iminência de arrombar... No que se refere às perdas de safra, o seguro-safra não responde, em vista da limitação de seus critérios. A questão que se coloca é: qual a responsabilidade do governo nesses casos, uma vez que nessa situação o ideal seria a efetivação de um programa de reestruturação das propriedades dos agricultores/as familiares, sem condicionalidades.

Muita gente tem se mobilizado em solidariedade: cidadãos e cidadãs de todos os cantos desse Ceará. As demandas chegam para todos os segmentos da sociedade: governo federal, estadual, municipal, Cooperação Internacional, pastorais sociais e ONGs.

Esse é o quadro geral e real do Ceará, que traduz a situação vivida nos municípios onde o ESPLAR está trabalhando em 2009: Massapê, Sobral, Forquilha, Santana do Acaraú, Canindé, Choró, Quixadá, Quixeramobim, Nova Russas, Acarape, Aracoiaba, Aratuba, Barreira, Baturité, Beberibe, Canindé, Caridade, Cascavel, Chorozinho, Ocara, Paramoti, Redenção, Senador Pompeu, Quixeramobim e Nova Russas.

Essa também é a realidade para quem vive no semi-árido cearense, com anos de inverno regular, anos de seca, anos com inverno pesado. O semiárido é assim: com uma biodiversidade fantástica, mas com muitas irregularidades do ponto de vista ambiental e a tendência é que tanto as épocas “secas” como o período de chuvas se intensifiquem.

O ano de 2009 vai ficar na memória de muitos/as que nunca viram ou viveram essa dramática situação. Algumas pessoas, principalmente as mais velhas, certamente irão relembrar fatos iguais ocorridos nas décadas de 1950 e 1970. Os ciclos se repetem, e não se tem como adivinhar ou prever como será o ano seguinte. “Um bom inverno” - esta foi a previsão dos Profetas da chuva, reunidos no dia 10/01/09 em Quixadá. São homens simples do sertão que observam a natureza para fazer previsões climáticas (não há mulheres nesse grupo; por que será?). Os cientistas do clima emitiram 10 dias depois dos profetas, um parecer que confirmava a previsão dos agricultores. Ambos acertaram - agricultores com seu conhecimento popular e os cientistas com sua tecnologia incrível - só não conseguiram prever a intensidade das chuvas. “ O sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão, já diziam Sá e Guarabira. Àquela época eles já nos alertavam, através de sua música, sobre as consequências danosas da destruição da natureza. Era a resposta ao que se chama hoje “Câmbios Climáticos”, cuja discussão nas esferas de poder dos países centrais, não chega a considerar suas razões, ficando na proposição de medidas mitigatórias para não ameaçar o modelo de produção e consumo.

Uma coisa todo mundo tem que entender: aqui no semi árido, onde moramos, sempre vai ser assim, os solos são rasos, as plantas têm muitos espinhos, uma parte do ano vai chover e na maior parte do ano vai fazer sol. E nesse cenário, se perguntarmos a um/a agricultor/a, se já brocou, se já queimou alguma vez na vida, se já plantou morro abaixo, se alguma vez cortou o mato da beira dos riachos e rios ou mesmo perto dos olhos d'águas nas serras... com certeza a maioria dirá que já. Mas, se perguntarmos às mesmas pessoas: quem já replantou uma área onde brocou ou queimou ou mesmo replantou à beira de um rio ou riacho ; quem teve o cuidado de plantar em curva de nível, quem teve cuidado em zelar a nascente do riacho, de não jogar lixo no córrego... a maioria vai dizer que não! Pois é, essa forma de usar a natureza, juntamente com o padrão de consumo que as pessoas da cidade querem manter e que as do campo são seduzidas a seguir, é o que vem contribuindo para que os fenômenos da natureza produzam estragos piores e maiores do que realmente aconteceria, caso a degradação ambiental não estivesse chegando ao seu limite.

Embora as enchentes atinjam todos/as, o segmento mais afetado - agricultores/as familiares, certamente terá muito mais dificuldade de se recuperar, se comparado a empresários, patrões, latifundiários e o setor do agronegócio, dada a forma desigual como tanto as políticas agrícolas são aplicadas para aqueles segmentos como a dimensão do “socorro financeiro” por parte dos poderes públicos e setor privado para um e outro.

Por tudo isso, esse é também um momento de pressionar e acompanhar as ações do governo para aquele setor responsável pela produção de mais de 50% dos alimentos que chega à mesa de brasileiros/as.

Está na hora de acordar para os perigos das mudanças climáticas. O momento agora é evitar que os setores do agronegócio e os agricultores/as que ainda não despertaram para a agroecologia, se beneficiem da natureza, alterando o ambiente natural de forma irresponsável e inconseqüente, manipulando o curso natural das águas, desmatando, assoreando os rios, queimando, usando agrotóxicos, desperdiçando e jogando grande quantidade de lixo no ambiente. Tudo isso tem um retorno para todos/as nós. A natureza vai estar dando e continuará a dar sua resposta a esses desmandos. A sobrevivência, não só das populações no presente mas das gerações futuras está colocada em altíssimo risco.

Certa vez, num dos cursos de capacitação em consórcios agroecológicos um agricultor de Massapê, depois de prestar bastante atenção na explicação sobre conservação dos recursos naturais, pediu para falar e com muita simplicidade disse: “é isso mesmo, o senhor está certo, eu comparo isso tudo como uma situação: a natureza é uma cadela cheia de pulgas, nós somos as pulgas e quando começam a incomodar, a coçar, a mordê-la, ela se sacode, ela se vira, se roça no chão e tira aquilo que está incomodando”. Creio que se nos encontrarmos outra vez, ele provavelmente dirá: “É, a cadela está sacudindo as pulgas que vêm lhe maltratando há tempos”.

O planeta se sacode, a caatinga agoniza. Quem sobreviver, que legado deixará para as gerações futuras?

São grandes os desafios, principalmente para nós do ESPLAR, uma das mais antigas ONG do semiárido cearense que nesse mês completa 35 anos de existência, de resistência e luta por uma sociedade justa e igualitária. São 35 anos de aposta na agroecologia, disseminando, através de inúmeros agricultores/as familiares, práticas que apontam para maiores possibilidades de se viver com dignidade, em ambientes mais estáveis, em um semiárido sustentável.

Em tempos de muita capitulação e pouco desassossego, a longa trajetória de enfrentamentos e conquistas dos movimentos e organizações da sociedade civil em que o Esplar fez-se presente, deve ser para nós, a força impulsionadora, capaz de nos lançar no desafio da sustentabilidade para a nossa região.

Fortaleza, 1º de junho de 2009
Ronildo Mastroianni Ferreira da Silva

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1Engenheiro Agrônomo; Técnico do Esplar .

 
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