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| Capa da revista Veja do dia 26/05 |
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As
ONGs e os interesses antagônicos na sociedade brasileira
Mais uma vez, os jornais se ocuparam do tema
das ONGs na última semana, provocados por uma reportagem
da Revista Veja, de 26 de maio (edição 1855), sobre
uma suposta malversação de fundos por parte de uma
entidade e Brasília. A matéria, além da denúncia,
inferia que a ONG seria uma "ONG petista", uma vez que
um dos seus diretores tinha vínculos com o PT e se aproveitava
desta condição para obter recursos do governo federal.
A reação de uma parte da mídia,
de alguns(as) articulistas, deputados e senadores foi de, mais uma
vez, aproveitar a oportunidade para incriminar o conjunto das ONGs,
levantando suspeitas sobre todas elas, exigindo maior controle por
parte do poder público, falando de um suposto crescimento
descontrolado e intransparente dessas organizações.
É errado pensar que não há controle
sobre as ONGs. Elas sofrem todo tipo de fiscalização
de qualquer entidade privada - como demonstra a matéria da
revista Veja - e têm, entre suas obrigações,
as mesmas responsabilidades de prestar contas ao poder público.
Além do mais, como muitas recebem recursos de doações
de indivíduos e entidades privadas, sofrem um controle a
mais por parte dos(as) seus(uas) doadores(as) para que tais recursos
sejam aplicados de forma correta e nos objetivos fins.Afinal, quem
continuaria a doar recursos para uma entidade que esteja envolvida
em denúncias de corrupção? Cabe, portanto,
às ONGs, pelo seu caráter de entidades com finalidade
pública, atuar de forma transparente, prestando contas sobre
as suas atividades e a forma como seus recursos são utilizados.
No universo das ONGs, assim como em qualquer ramo
de atividade, pode haver casos de corrupção, de malversação
de fundos. Cabe às instâncias responsáveis atuar
de forma eficiente e justa no sentido de coibir, averiguar e punir
tais casos, construindo, desta forma, uma sociedade que se impõe
pelas leis e por uma cultura de transparência e de não-corrupção.
Não se configuram, na realidade brasileira e mundial, indicadores
que revelem que o universo das ONGs é marcado por denúncias
de corrupção e falta de transparência. Ao contrário,
uma recente CPI do Senado Federal, depois de dois anos de investigação
sobre as ONGs, acabou por encontrar uns poucos casos de irregularidades,
que facilmente podem ser coibidas e punidas pelos órgãos
competentes.
No plano político, as ONGs são mais
ou menos aceitas, dependendo do tipo de trabalho que realizam. Normalmente
há um maior reconhecimento público das ONGs que prestam
serviços à comunidade no atendimento, por exemplo,
da saúde, educação, recreação,
acolhimento. São entidades de capacitação para
o trabalho, escolas comunitárias, centros de atendimentos
de populações economicamente vulneráveis, saúde
comunitária, alternativas de geração de renda
e tantos outros serviços. Tais instituições
cumprem um papel fundamental de atenção aos(às)
excluídos(as) da sociedade, aqueles(as) que não conseguem
usufruir dos direitos assegurados por lei a todas as pessoas.
No entanto, quando as ONGs avançam sobre as
causas dos problemas sociais, reivindicam que tais direitos sejam
cumpridos e universalizados pelo poder público, apontam a
dura realidade da exclusão social, o desrespeito aos direitos
humanos, o descumprimento de regras mínimas de preservação
ambiental e da biodiversidade, assim como os mecanismos de manutenção
e reprodução destas injustiças, elas passam
a incomodar, contrariam interesses enraizados nas estruturas de
poder. A forma mais comum de reação dos setores conservadores
tem sido a criminalização das ONGs, o questionamento
de sua representatividade, a redução de seu trabalho
a interesses e disputas partidárias, a acusação
de estarem a serviço de interesses escusos ou internacionais.
Evidentemente, o que está em jogo é
o livre e democrático debate de idéias, bem como a
legítima pressão e mobilização social
na defesa de interesses que são de natureza política,
antes de ser partidária. Tais interesses se revelam na luta
pelo reconhecimento e pela implantação dos direitos
econômicos, sociais, culturais e ambientais neste país;
direitos estes que estão na nossa Constituição
e em acordos internacionais. Revelam-se, ainda, na capacidade de
produzir novos direitos, fazendo-os reconhecidos por toda a sociedade.
Se é verdade que as ONGs não
pretendem ter a representatividade de setores da sociedade, que
têm suas próprias formas de representação
- os movimentos sociais, os sindicatos, as associações
de classe, as redes e os fóruns -, não se pode, em
nome disso, questionar a legitimidade política de qualquer
cidadão(ã) de se organizar em entidades para defender
e implantar direitos reconhecidos por todos e todas como de interesse
público, bem como para criar novos direitos que ajudem a
construir uma sociedade mais justa e democrática. Nada há
de escuso nisso, muito pelo contrário.
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