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Agradeço o honroso convite do Instituto de Economia
da FGV e destaco o desafio que representa para mim esta oportunidade de
proferir a palestra de abertura num Seminário que se propõe
a debater o posicionamento político do Terceiro Setor. Apesar de
atribuir limitada eficácia interpretativa ao conceito de Terceiro
Setor, não há neste momento espaço para entrarmos
num debate conceitual, sendo preferível uma abordagem da questão
que privilegie as questões concretas relativas à identidade
política dos diferentes segmentos do que se convencionou chamar
de Terceiro Setor, assim como o contexto político das relações
entre Estado e Sociedade Civil no Brasil, marcado pela persistência
de algumas questões centrais que têm condicionado a atuação
dos segmentos diferenciados de OSC’s que são reconhecidos
como integrantes do Terceiro Setor.
Parece-me evidente que é extremamente complexo o
desafio a que se propõem os promotores deste II Seminário,
ao pretenderem analisar o posicionamento político de pelo menos
três universos distintos de OSC’s, com histórias, trajetórias
e identidades políticas inteiramente diversas, marcadas por profundas
diferenças do ponto de vista de uma questão central para
os fins deste debate que é a questão da relação
entre Sociedade Civil e Estado no Brasil que, por sua vez, não
pode ser compreendida fora do contexto sobre-determinante de uma globalização
dominada pelas grandes corporações transnacionais que vem
redefinindo o papel dos Estados (com exceção talvez do Estado
imperial) e o próprio alcance da democracia.
Na tentativa de nos apropriarmos desse objeto complexo,
é preciso considerar, em primeiro lugar, o segmento mais antigo
do chamado Terceiro Setor, constituído pela vasta área de
organizações dedicadas à assistência social,
educação, e saúde que constituem o conjunto mais
numeroso de organizações privadas registradas como organizações
sem fins lucrativos. Precisaremos ter presente neste debate a profunda
clivagem de interesses – com distintas agendas políticas
decorrentes desses interesses em disputa – que configura a realidade
política desse segmento, no interior do qual se contrapõem,
desde antes mesmo da aprovação da atual LOAS, dois projetos
políticos antagônicos: o projeto político de renovação
e consolidação da assistência social, como política
pública e como direito social (Art. 6º da Constituição
de 1988), e o projeto conservador voltado para a manutenção
de um conjunto de privilégios ilegítimos, derivados da velha
e duradoura aliança entre falsas entidades sem fins lucrativos
e um Estado que era e continua sendo profundamente privatizado e manipulado
por interesses clientelistas e favorecimentos políticos.
Em segundo lugar, nesta tentativa não exaustiva
de caracterização das diversas identidades políticas
que constituem o agregado do chamado Terceiro Setor, é preciso
considerar o campo dos institutos e fundações empresariais
que, visto por um olhar externo como o meu, parece constituir igualmente
um campo em disputa, no qual um projeto político mais moderno,
voltado para o comprometimento das empresas com um conceito avançado
de responsabilidade social, tenta se afirmar enfrentando inúmeras
dificuldades, num universo ainda dominado pelas tradições
do mais estreito corporativismo, características de um empresariado
que jamais se comprometeu com um projeto de sociedade para o Brasil que
fosse voltado para a inclusão social e para a promoção
de um desenvolvimento sustentável, numa perspectiva sócio-ambiental.
Reconhecendo os esforços de organizações como o GIFE
e o Instituto Ethos na promoção de uma nova perspectiva
de responsabilidade empresarial, não podemos nos furtar a um diagnóstico
mais preciso deste segmento do Terceiro Setor, e de suas ambivalentes
relações com o Estado, para melhor analisarmos o seu posicionamento
político.
Um terceiro segmento – por certo igualmente permeado
por diferenças internas – corresponde a um campo de organizações
de constituição mais recente, comprometidas com ideários
que foram sendo construídos no processo de democratização
da sociedade brasileira, referidas à luta contra as desigualdades
sociais, à defesa de interesses difusos, à promoção
de direitos e à cidadania. Ao participar deste debate, só
posso fazê-lo de maneira posicionada, deixando claro que a contribuição
para a presente reflexão, do segmento de organizações
da Sociedade Civil representado pela ABONG, parte de princípios
políticos que se contrapõem ao primado do mercado sobre
a sociedade e que se traduzem nos seguintes compromissos programáticos
das nossas ONG’s: a luta contra a exclusão e pela redução
das desigualdades sociais – com ênfase na luta contra a desigualdade
racial e de gênero –, a promoção e a defesa
dos direitos humanos (com ênfase nos direitos econômicos,
sociais e culturais), a busca de um novo modelo de desenvolvimento que
privilegie a geração de emprego e renda, socialmente justo
e ambientalmente sustentável. Com base nesses princípios,
a ABONG e suas associadas têm pautado as suas relações
com os governos que se sucederam desde a fundação da ABONG
em 1991, e com base nesses mesmos princípios as ONG’s têm
dialogado com o governo Lula há um ano e quatro meses, sempre inspiradas
pelo anseio de que o atual governo fosse bem-sucedido na realização
dos compromissos de mudanças em prol das maiorias excluídas
da sociedade brasileira. Este segmento evoluiu na sua relação
com o Estado, marcada nos primeiros anos pela resistência ao regime
ditatorial, tendo como eixos da sua atuação frente ao Estado,
nos últimos anos, o compromisso com uma reforma do Estado no sentido
oposto ao das reformas privatistas e liberalizantes dos últimos
governos, e luta pela democratização da gestão do
Estado, a partir do fortalecimento de canais institucionais de participação
social.
Ao trazermos o ponto de vista das ONG’s para o debate
sobre o posicionamento político do Terceiro Setor, não podemos
deixar de incorporar à discussão a nossa avaliação
dos primeiros quinze meses do governo Lula. A ABONG avalia que, sob diversos
aspectos, os rumos do governo Lula conflitam com princípios e com
os compromissos programáticos mínimos das ONG’s, acima
apontados, e com as expectativas de mudança dos seus eleitores
– retomada do crescimento, geração de empregos e redução
das desigualdades sociais. A opção do governo Lula pela
continuidade da política macro-econômica e de outros fundamentos
da política do governo anterior, vem acarretando a crescente frustração
de parcelas cada vez mais expressivas dos seus eleitores, e em particular
dos movimentos sociais e de outros setores da sociedade civil organizada.
Sem me alongar aqui numa avaliação do governo Lula –
a qual nos desviaria do foco deste debate – parece-me pertinente
externar as nossas preocupações com o fato de o governo
Lula não ter colocado na sua pauta política um projeto de
reforma do Estado, que avançasse no sentido de superar a histórica
apropriação privada do Estado e dos processos decisórios
no Brasil. Essa lacuna incide negativamente nas relações
entre o Estado (e o governo Lula) e as organizações da sociedade
civil integrantes do Terceiro Setor.
Esse contexto em que se dá o posicionamento político
do Terceiro Setor constitui um pano de fundo que incide de forma comum
sobre as organizações da sociedade civil, sem prejuízo
das diferenças de identidade e de projetos políticos antes
mencionados. Como bem mostra a leitura cotidiana dos jornais, as organizações
da sociedade civil que atuam no campo social são freqüentemente
questionadas em função das contradições inerentes
à perda de capacidade do Estado brasileiro de cumprir o seu papel
e a delegação de algumas de suas funções e
responsabilidades ao Terceiro Setor e a organizações comunitárias
(por exemplo, associações indígenas no caso da FUNASA).
Os constrangimentos econômicos – ajuste fiscal permanente,
elevação do superávit primário, etc. - comprometem
as políticas sociais universais e induzem o governo a limitar-se
a políticas focalizadas ou compensatórias, que não
se orientam pela idéia de efetiva superação da pobreza.
É certo que esse cenário comporta um leque de opções
políticas bastante diferenciadas, que vão do compromisso
mais conseqüente com a exigência de mudanças voltadas
para a superação da atual desordem social brasileira até
a inserção conformista nos esquemas de terceirização
do Estado através do terceiro Setor na lógica neoliberal
das políticas compensatórias que nada compensam na medida
em que chegamos a uma situação em que décadas de
estagnação e de desemprego condenam as políticas
sociais a uma missão tão eficaz quanto enxugar gelo.
Finalmente, para aprofundarmos o debate sobre o posicionamento
político do Terceiro Setor, não podemos perder de vista,
como referência principal, a questão da democracia. Analisando
os diferentes processos políticos da América Latina, a pesquisadora
chilena Marta Lagos constata que há uma percepção
majoritária entre as populações da região:
a de que seus governantes da era democrática não têm
poder para lidar com as expectativas criadas e alimentadas por eles mesmos.
"O discurso pouco crível dos políticos, associado à
sensação de dispersão do poder, explica por que muitos
governos estão tão mal avaliados", diz Lagos, diretora
executiva do Latinobarómetro , sediado em Santiago. Segundo Lagos,
criou-se um falso vínculo entre democracia e desenvolvimento econômico.
"Precisamos trazer a democracia de volta ao que ela é: um
sistema político que privilegia a paz e o entendimento e a liberdade",
diz.
Essa visão absolutamente reducionista do processo
democrático, que o desvincula do exercício do poder real,
foi recentemente reiterada em artigo do ex-presidente FHC, no qual este
cobrou do governo Lula maior radicalidade na capitulação
diante do que chama de realidade da globalização.
A idéia segundo a qual, nas palavras de FHC, “as
margens de manobra dos governos, mesmo do mais poderoso deles são
pequenas diante da nova lógica dos mercados” é um
elemento central no discurso ideológico da impotência insuperável
dos Estados – lógica esta que embasou a atuação
governamental no período 1994-2002 e continua embasando o discurso
e a pratica do governo Lula. Se apesar da submissão aos mercados
globais, o governo Lula parece ter concentrado na política externa
– para citar a Prof. Maria da Conceição Tavares –
“a única visão estratégica que o nosso governo
teve”, quero finalizar reconhecendo que as organizações
da sociedade civil estão igualmente desafiadas a assumirem uma
agenda política internacional que contribua para a superação
desse estado generalizado de impotência a que parecem estar condenados
o Estado e a sociedade civil no Brasil, e para a ruptura dos bloqueios
que a hegemonia financeira e a política imperial e militarista
dos EUA vêm impondo ao desenvolvimento da América Latina.
Jorge Eduardo Saavedra Durão -
Diretor geral da ABONG
Rio de Janeiro, 6 de maio de 2004
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