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Dentre os principais consensos tidos como resultados
da Conferência sobre Ambiente e Sustentabilidade ocorrida
durante o Forum Social Mundial em 2002, destacam-se:
- “que os problemas sócio-ambientais
continuam agravando-se apesar dos compromissos para o desenvolvimento
sustentável, firmados na Rio 92. Não há justiça
sem sustentabilidade. A espécie humana consome mais do
que o planeta pode gerar.Não se pode construir a equidade,
sob a base dos padrões de produção e consumo
dos países do Norte. O espaço ambiental do planeta
é finito e os estilos de vida, produção e
consumo devem ser redesenhados.”
- “ que o princípio da Precaução
deve ser uma pré-condição para toda atividade
econômica. As empresas e não as comunidades devem
entregar as provas de que não contaminarão ou farão
dano, antes de iniciar suas atividades.Estas provas devem ser
possíveis de controlar legalmente.A sustentabilidade do
ambiente e dos direitos das pessoas são superiores ao direito
que têm as corporações de fazer negócios.”
Recentemente, durante o Forum Social das Américas
ocorrido em Quito, no Equador (julho/2004), foi instalado o Tribunal
Pela Soberania Alimentar, para julgar os crimes sociais e ecológicos
do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento(BID).
Ao final, um dos itens da sentença exarada por Juízes
de diversos países latinoamericanos, dentre eles o Prêmio
Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel, que destacou-se foi:
“Obrigar ao Banco Mundial e ao BID que
deixem de fomentar e financiar o uso de agrotóxicos e de
monocultivos transgênicos, por virem demonstrando altos impactos
sociais e ambientais, pondo ainda em risco, a soberania alimentar
dos povos.”
Além da sentença, os Juízes
fizeram algumas exigências aos governos de América
Latina, dentre elas que “se declare a América Latina
Livre de Transgênicos”.
Em geral, as pesquisas realizadas até hoje
para avaliar impactos dos organismos transgênicos erram pela
parcialidade: ou foram financiadas diretamente pelas multinacionais
que têm interesse na venda dos produtos que elas próprias
desenvolvem ou foram realizadas por cientistas de Institutos de
Pesquisa ou Universidades públicas que indiretamente, receberam
recursos financeiros dessas mesmas empresas. De uma forma ou de
outra, não podem ser chamadas de imparciais.
As implicações éticas e as
consequências do uso de transgênicos para a saúde,
reprodução, agricultura, meio ambiente e direitos
sociais, carecem ainda de estudos mais aprofundados e independentes
que nos possibilitem exercer o direito de escolha, sem pagarmos
o preço pago até hoje com a larga utilização
de agrotóxicos. Efetivar o princípio da Precaução,
sem prejuízo da continuidade de pesquisas públicas,
autônomas, pagas com recursos públicos seria pois,
a melhor atitude.
A biotecnologia se aplica a partir de técnicas
com códigos genéticos. Isso significa que os organismos
vivos são a matéria prima para viabilizar diferentes
recombinações genéticas. Essa tecnologia, sofisticada
e cara, é controlada por grandes empresas do mercado de sementes.
A soja, o produto transgênico mais cultivado do mundo, possui
mais de 900 usos, entre consumo direto e industrial, segundo o prof.
de Economia Agrícola da Unicamp, José Maria da Silveira.
Produzir soja transgênica significa favorecer
as grandes multinacionais do agronegócio, uniformizar a atividade
agrícola e, por conseguinte, empobrecer cada vez mais os
solos e, principalmente, contribuir para o desemprego e a fome nas
áreas rurais. O mesmo pode ser dito do milho transgênico.
Glaci Zancan, ex-Presidenta da SBPC, afirma que
a quebra do equilíbrio ecológico com a transgenia,
a partir da possibilidade de se produzir uma espécie que
provoque problemas na natureza, apresenta-se como uma questão
bastante preocupante, principalmente em função da
quebra do costume secular de populações campesinas
de guardarem e produzirem suas próprias sementes.
A par de tudo isso, um setor da população
defende que os transgênicos devem ser investimento prioritário
no campo das políticas públicas para a agricultura,
pois se teria, com pouco dano ao meio ambiente, maior produção
de alimentos e melhor distribuição para as populações
pobres. Este setor deixa de considerar deliberadamente, que existem
alternativas para a agricultura – a agroecologia- capazes
de democratizar a produção e distribuição
de alimentos e impactar minimamente na natureza
Na verdade, escamoteia-se a questão central
que tem essa tecnologia como um dos vetores, que é o modelo
de desenvolvimento sustentado pelos países que têm
hegemonia no mercado mundial, através do controle das sementes.
Modelo este que tem nome, cor, raça, gênero e classe
social.
Um outro processo também tem ocorrido no
campo dos recursos genéticos. Trata-se da subordinação
de legislações a interesses do governo americano,
o que as torna uma das principais responsáveis pela total
flexibilidade dos marcos regulatórios na região latinoamericana,
no sentido de favorecer a depredação dos ecossistemas
nacionais. Daí a facilidade com que as grandes corporações
do mercado de sementes, se apropriam dos nossos recursos naturais,
esgotando uns, contaminando outros e chantageando com o que lhes
resta explorar.
No Brasil e México, dois dos maiores países
do mundo em biodiversidade, as grandes corporações
transnacionais estão investindo no controle sobre o uso de
variedades de fauna e flora. Essas variedades têm valor estratégico
porque muitas das soluções anti-transgênicos
como produtos medicinais, praguicidas orgânicos e soluções
sustentáveis para a fome, a nutrição e a preservação
ambiental estão vinculadas a esse uso. No caso do México,
estendendo-se para CentroAmérica, liderando o agrobusines
global, estão o Banco Mundial junto com o BID e o Banco LatinoAmericano
de Integração Econômica.
Segundo Relatório elaborado pelo Forum Boliviano
de Meio Ambiente (2002), desde os anos de 1990, o Banco Mundial
promove com países pobres e endividados, um programa para
abater suas dívidas externas ( principalmente em alguns países
da América Central), em troca da permissão de controle
sobre suas reservas ecológicas protegidas.
Na verdade, o controle do mercado global de alimentos
tem sido estruturado para minar a soberania alimentar dos países
pobres. Isso tem se dado por meio de uma teia de relações
estabelecidas entre as transnacionais, onde se integram alimentos-químicos
e medicamentos, favorecida pela introdução cada vez
mais insistente, do chamado Livre Mercado. Essa teia, tenta se consolidar
através da:
- Tentativa dessas transnacionais e grupos nacionais
de fazer desaparecer para sempre milhares de variedades agrícolas,
legado das culturas indígena e campesina à humanidade,
selecionadas de modo tradicional durante séculos;
- A tentativa, através do controle do mercado
e dos preços, de quebrar a possibilidade dos agricultores
e agricultoras familiares de sobreviverem, por terem de abandonar
suas terras;
- A tentativa de promover o monocultivo, em prejuízo
dos alimentos necessários ao autoconsumo, cujo destino
é satisfazer a demanda de matéria-prima requerida
pelo mercado mundial;
- A tentativa de impedir políticas governamentais
de apoio, subsídio e crédito a agricultores e agricultoras
familiares;
Diante de tudo isso, temos a certeza de que em torno
dessa questão restam ainda mais dúvidas do que certezas;
mais sombras do que luzes.
No dia 1º de Janeiro de 2003, Lula assumiu
a Presidência, assentado num compromisso inabalável
com a garantia de alimentos de qualidade e segurança para
a população.
Para as 32 milhões de pessoas que têm
fome neste país, a evolução da ciência
em si, não resolve as desigualdades, a exclusão e
a fome. Portanto, perspectiva de futuro com transgênicos não
deve ser vista como diferente dos processos que produzem desigualdade,
miséria e barbárie. Ambos são faces de uma
mesma moeda; mas não querem dizer a mesma coisa.
Estamos por um fio. O Projeto de Lei de Biossegurança
liberando o cultivo e a produção de transgênicos,
poderá ser aprovado nos próximos meses. Resta-nos
o bom senso dos Parlamentares no Congresso Nacional.
Quem perdoará o governo Lula se ele passar
para a História com mais esse feito? A natureza certamente
que não.
Fortaleza, 20 de setembro de 2004
Magnólia Said – Presidenta
do Esplar e membro da Campanha Por Um Brasil Livre de Transgênicos
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