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Análise do Empréstimo do Banco Mundial ao Estado do Ceará
28/07/05

Em agosto, deverá ser aprovado, no Senado, um empréstimo ao Governo do Estado do Ceará no valor de US$ 149,75 milhões. A operação aprovada tem o nome “Projeto de Desenvolvimento APL Multi-Setorial do Ceará”. A sigla “APL” refere-se à expressão “Empréstimo de Programa Adaptável” (Adaptable Program Loan – APL), conforme notícia no Jornal O Povo, de 12 de julho/2005.

Trata-se de um empréstimo de “ajuste” econômico, com várias etapas de desembolso, condicionadas a que o governo do Ceará logre o atingimento de “metas” em diversas áreas de políticas públicas. Isto significa que os quase US$ 150 milhões do Banco não irão para investimentos em projetos, mas sim para o tesouro do estado do Ceará, a fim de equilibrar as contas públicas estaduais, inclusive perante o governo federal. O documento do Banco( DIP) é explícito quanto a isto: “recursos do empréstimo não vão diretamente aos Programas com Despesas Elegíveis (PDE) ou setores – o desembolso é [feito] ao Tesouro do Estado”. Este procedimento segue o modelo de outros empréstimos do Banco Mundial feitos ao Brasil, inclusive o do “Bolsa Família”.

O empréstimo estabelece níveis exigidos de despesas para cada PDE, ou seja, embora nenhum centavo do empréstimo seja destinado a investimentos, o projeto estabelece critérios e montantes de despesas a serem realizadas com dinheiro do orçamento público do Estado do Ceará. Os critérios são para a realização de dispêndios com dinheiro do Estado do Ceará, não do Banco Mundial.

As despesas com o dinheiro do tesouro cearense, autorizadas pelo projeto do Banco Mundial (em parceria com o governo local) correspondem ao que o DIP chama de “Programas com Despesas Elegíveis” (PDEs). O projeto enumera 9 PDEs e discrimina os montantes de despesas orçamentárias autorizadas, aproximadamente equivalentes a: (i) US$ 20 milhões por ano para o programa “Agente de Saúde”; (ii) US$ 26 milhões por ano para o “Saúde Perto de Você”; (iii) US$ 20 milhões por ano para Educação (Padrões Básicos para o Funcionamento de Escolas); (iv) US$ 5 milhões por ano para o programa “Universalização Progressiva do Ensino Médio nas Localidade Rurais e Urbanas”, que prevê, inclusive contratação de professores temporários; (v) US$ 145 milhões por ano para escolas municipais do programa FUNDEF; (vi) US$ 6 milhões por ano para Água e Saúde em áreas urbanas; (vii) US$ 10 milhões por ano para saneamento urbano; (viii) US$ 18 milhões por ano para o programa hídrico do Açude Castanhão; e (ix) US$ 3 milhões por ano para a o programa de biodiversidade – PROBIO.

O projeto prevê, ainda, que até US$ 4,9 milhões serão destinados à “assistência técnica” prestada pelo Banco ao governo do Ceará. Isto significa que os critérios técnicos que a administração do estado utilizará para gerenciar as políticas públicas nas 9 áreas mencionadas, bem como o direcionamento de reformas pertinentes e a mensuração de resultados, não virão apenas de conhecimentos acumulados nos quadros da própria administração pública ou em universidades e centros de pesquisa estaduais ou nacionais, mas do Banco Mundial.

A assistência técnica, segundo o DIP, focalizará o componente de “Reforma do Estado”, ou o Eixo de Gerenciamento do Setor Público do projeto. Para o Banco, a assistência técnica tem o papel vital de melhorar a eficiência em todos os setores.
A assistência técnica deverá também assegurar que objetivos da chamada “sustentabilidade fiscal” sejam favorecidos. Assim, ela incorporará “parâmetros fiscais essenciais”,tais como superávit primário, relação renda fiscal/PIB e relação dívida/PIB e atingirá processos de licitação e constituição de despesas e passivos. Isto significa, entre outras coisas, que o mesmo modelo de gestão financeira (macroeconômica) e de políticas públicas que o Banco Mundial ajuda a manter no nível do governo federal no Brasil passa a estar reproduzido no nível estadual.

O projeto pretende com isso determinar, inclusive, os critérios com base nos quais as Secretarias de estado de setores não-econômicos (Secretaria da Saúde, Secretaria de Educação Básica, Secretaria dos Recursos Hídricos) permanecerão manietadas ao controle exercido pela autoridade da área econômica – nesse caso alojada no Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE), da Secretaria do Planejamento e Coordenação.
É a partir dali que entra em operação a chamada “Unidade de Implementação de Projeto” (UIP), o núcleo articulador de uma rede gerencial que responde a objetivos e critérios de validade técnica escolhidos com influência do Banco Mundial.

Oos recursos para a assistência técnica que não estejam previstos no projeto virão de outras fontes do próprio Banco, ou do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) ou de fontes do orçamento estadual.

Além disso, o Banco Mundial e o Governo do estado adotarão, em alguns casos, as salvaguardas do BID. Isto ocorrerá, por exemplo, com o SANEAR II e o Projeto Alvorada da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (CAGECE).

Espanta que o atual governo de estado, prefira a proximidade com o Banco Mundial do que com o povo que o elegeu. De fato, não se tem notícia de que o governo tenha dado ampla publicidade às negociações com o Banco Mundial, referentes a este empréstimo.

O DIP ressalta que “equipes do Banco vieram ao Ceará para desenvolver propostas com “as contrapartes setoriais” e obter aceitação local. Indica ainda que foi realizada uma oficina de 3 dias e que a proposta obteve a aceitação formal dos Secretários, Governador e Vice-Governador. Segundo o DIP, ficaram todos satisfeitos, sendo que “funcionários das Secretarias setoriais e da SEPLAN estão encantados em ter níveis orçamentários garantidos e condições de desembolso, inclusive performance ‘satisfatória’ da pasta que apoiam seus mais importantes programas” .

Sobre essas conversas e negociações, ao que se saiba, não foram realizadas consultas à sociedade civil, nem o governo procedeu com a devida transparência em relação ao destino real do empréstimo.

O DIP indica, ainda, que a “alavancagem financeira” obtida com o projeto é muito significativa, ou seja, de fato, o Banco oferece US$ 149 milhões ao Estado. Esses recursos vão diretamente para o tesouro estadual, a fim de auxiliar no equilíbrio fiscal estadual, como já explicitado. Porém, para obter o empréstimo, o Governo do Estado compromete o equivalente a US$ 1,2 bilhão de seu orçamento para cumprir as condicionalidades constantes do projeto do Banco. Ou seja: o governo do estado oferece uma contrapartida equivalente a oito vezes o valor dos desembolsos do Banco Mundial sob a operação. E, em conseqüência disto, o Banco adquire um poder de influência enorme sobre inúmeras políticas públicas do estado, abrangendo programas orçados em US$ 1,2 bilhão.

Na prática isso significa uma espécie de “controle remoto”, adquirido pelo Banco a preço de pechincha, e exercido sobre o processo orçamentário e as políticas públicas do estado.

O “Projeto de Desenvolvimento APL Multi-Setorial do Ceará” é no mínimo paradoxal e sem dúvida anti-democrático. Por meio do empréstimo obtido junto ao Banco Mundial, o governo do estado submete programas de políticas públicas extremamente importantes a desígnios escolhidos sob a influência da instituição financeira.

Quem deveria opinar sobre estas reformas, era o povo do estado, não os técnicos de uma instituição sediada a milhares de quilômetros de distância e com uma agenda estranha às aspirações das comunidades locais.

Este é mais um exemplo de como o Banco Mundial, junto com o BID, trabalha também no nível sub-nacional em favor da adoção de reformas em diversas áreas de políticas públicas e exercendo interferências sobre a gestão financeira dos governos, sem que tenham sido escolhidas pelo povo, de quem toda autoridade deve emanar em uma verdadeira democracia.

Para saber mais detalhes, consulte:


Project Information Document (PID) – Appraisal Stage.
Ver: http://www-wds.worldbank.org/servlet/WDSServlet?
pcont=details&eid=000104615_20040830153840 visitado em 12-jul.-2005


Salvaguardas são regras adotadas internamente pelos bancos multilaterais com diretrizes para a proteção de direitos ambientais e de comunidades. A atual política de salvaguardas ambientais do BID está em processo de revisão, pois é muito antiga e tem se mostrado insatisfatória.

“Anexo 10: BRASIL: Desenvolvimento do APL Multisetorial do Estado do Ceará – Impacto Social e Ambiental e Avaliação de Gestão”
Ver: http://www.iplance.ce.gov.br/SWAP/Anexo%2010.PDF Visitado em 04-jul.-2005

http://www.rbrasil.org.br

 

 
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