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A determinação do governo federal de
levar adiante o projeto de transposição das águas
do Rio São Francisco a despeito dos questionamentos de diversos
segmentos da sociedade brasileira fez necessário o esclarecimento
público do posicionamento das organizações
e movimentos sociais abaixo assinados.
O fenômeno da estiagem é uma ocorrência
natural no nordeste semi-árido, onde habitam cerca de 18
milhões de pessoas em uma área de 830.000 quilômetros
quadrados. Para esta população, problemas sócio-econômicos
e políticos como o acesso à terra, água, saúde,
educação e crédito têm representado limitação
maior do que as condições climáticas, com as
quais se têm convivido há, pelo menos, dois séculos.
A ênfase no “problema das secas” tem, historicamente,
servido a interesses eleitorais e ao uso privado de recursos públicos
por grupos influentes.
Em mais de um século de atuação
do Estado na região nordeste, as obras hídricas implantadas
geraram um inegável potencial de armazenamento. O problema
do acesso à água para consumo e produção,
entretanto, permanece para a maior parte da população,
até mesmo para aquelas comunidades próximas a açudes
públicos e rios perenizados. O êxodo rural, o inchaço
das cidades e a persistência das disparidades sócio-econômicas
refletem o saldo das políticas adotadas.
Valendo-se de já conhecidas imagens de um
nordeste esteriotipado, de chão rachado, gado morrendo e
povo sofrido, o governo federal quer fazer crer ao povo brasileiro
que a transposição das águas do Rio São
Francisco é a “solução definitiva para
a seca do nordeste”. A questão do desenvolvimento e
dos problemas sociais da região é complexa e deveria
ser tratada com seriedade pelos governantes.
O projeto de transposição consiste
em trazer água por dois canais de cerca de 700 km lineares,
às bacias do Rio Jaguaribe (CE), Piranhas-Açu (RN),
Paraíba (PB) e Ipojuca (PE). Os prováveis benefícios
do projeto abrangeriam, portanto, apenas uma determinada área
e não o conjunto do nordeste seco. A população
difusa aí residente, de todo modo, continuaria disputando
a água com usuários de maior porte e influência.
No estado do Ceará os governos estadual e
federal têm realizado investimentos para a implantação
de empreendimentos privados que demandam alto consumo de água.
Os polos de agricultura irrigada, as fazendas de camarão
e o complexo industrial do Pecém, maiores demandantes da
água do São Francisco, são empreendimentos
que embora gerem crescimento econômico, reforçam a
lógica de concentração de riquezas, exclusão
social, e degradação ambiental.
De acordo com o Comitê Gestor da Bacia do
São Francisco, em virtude das agressões ambientais
que sofre há décadas, o rio enfrenta atualmente problemas
de vazão para atender as demandas de sua própria bacia,
entre as quais se destaca a geração de energia elétrica.
A transposição implicará em investimentos que
podem chegar a 10 bilhões de reais além do elevado
custo energético e financeiro de manutenção
do projeto, que envolverá o bombeamento da água na
chapada do Araripe, e perdas por evaporação e infiltração
que deverão onerar toda a operação.
As organizações e movimentos sociais
abaixo assinados não aceitam a transposição
nos termos do projeto atual e esperam que o governo reconheça
a legitimidade dos questionamentos e posições contrárias,
e em respeito à democracia, submeta a questão a um
amplo debate e consulta popular.
Participamos da luta democrática que culminou
com a eleição do presidente Lula e convidamos o governo
a retomar compromissos assumidos em campanha e respaldados pela
vontade popular. Somos favoráveis e apoiaremos políticas
públicas que:
- Retomem o planejamento regional com participação
popular;
- Assegurem o acesso à terra, água,
moradia, educação e saúde de qualidade como
direito fundamental a toda população;
- Promovam uma verdadeira reforma agrária;
- Apóiem a agricultura familiar e a economia
solidária;
- Descentralizem os investimentos;
- Possibilitem a convivência com o semi-árido;
- Garantam a conservação, uso sustentável
e recuperação do meio ambiente;
- Promovam a revitalização das bacias
hidrográficas do Nordeste;
- Reconheçam os direitos étnicos,
de gênero e geração.
Associação Brasileira de Organizações
Não Governamentais - ABONG – Regionais do Nordeste
(76 organizações)
Fórum da Zona Costeira do Ceará (23
organizações)
Fórum Cearense pela Vida do Semi-Árido
(101 organizações)
Articulação no Semi-Árido -
ASA (800 organizações)
Comitê Estadual da Marcha Mundial de Mulheres
– Ceará (7 organizações)
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST-CE
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