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As políticas hídricas no Estado preservaram o produto econômico cearense das adversidades climáticas mas não encararam de maneira sustentada seus impactos ambientais.
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água quebra-se em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de pólo, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez".
Trecho do poema "Rios sem discurso", de João Cabral de Melo Neto
Culpa de São Pedro, que não colabora. "O grande fator do desajuste econômico, do crescimento pequeno, enfim, de subdesenvolvimento, na realidade, tem sido a seca. Nosso povo é criativo e trabalhador. O que atrasa nosso desenvolvimento tem sido os fenômenos climáticos", acredita o diretor de Estudos Setoriais do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), Pedro Jorge Vianna. Ele aponta, na "política de águas" das últimas décadas (em síntese, a integração das bacias hidrográficas do Estado/os canais de integração e o aumento da capacidade de acumulação d´água), a saída. "A seca já não diminui o produto econômico do Estado. Diminui a taxa do crescimento, mas não torna o produto negativo. E as medidas emergenciais são cada vez menores - o uso de carros-pipa, por exemplo".
A diretora do Esplar-Centro de Pesquisa e Assessoria, Magnólia Said, ressalva: "Uma política de águas deve estar vinculada a uma política ambiental. Qualquer intervenção na estrutura de rios vai afetar não apenas a qualidade, mas a quantidade da água disponível. E também animais e a população do entorno. No Ceará, infra-estrutura e meio-ambiente são como água e óleo, não se misturam. A água é tratada como fonte de recursos financeiros e não como direito humano". A partir daí, Said enumera equívocos em obras como o Canal da Integração ("feito para abastecer o Complexo Industrial do Porto do Pecém; quem vive no entorno sabe disso"), o Canal do Trabalhador ("construído para abastecer a população da região metropolitana; hoje se encontra praticamente inoperante, sem irrigar 40 mil hectares das margens") e o projeto de transposição do São Francisco ("a água vai para o Castanhão, para alimentar uma siderurgia; nós não comemos aço").
Para as ONGs ligadas ao tema, é necessária uma reversão de prioridades. O Ceará - um estado de terra sem água, que escapa pelo armazenamento da chuva - já consegue driblar a seca, mas estão em jogo os grandes reservatórios versus a democratização do acesso à água. O parecer é do diretor técnico do Esplar, Marcus Vinicius de Oliveira. Para ele, há uma garantia de recursos hídricos. E há uma pergunta insistente: "É possível um governo novo usar água em benefício de um modelo sustentável? Sim, mesmo do jeito que está". Mãos à obra, então. "A reversão se dá por uma decisão política e de enfrentamento à mesmice (sair do lugar comum). Ser diferente não significa fazer uma revolução. Eu posso colocar esses recursos a serviço de uma agricultura familiar, que diversifica as culturas e que tem soluções baratas", defende.
Na opinião da engenheira de pesca Soraya Vanini Tupinambá, da Frente Cearense por uma Nova Cultura da Água, as políticas públicas erram ao concentrar a atenção na oferta da água: "As grandes obras limitam essa interpretação do problema. Como se fosse uma questão tão somente de infra-estrutura hídrica e não tivesse a distribuição. 'Basta ter o Castanhão e se tem a solução dos problemas', é colocado assim. A política de distribuição e democratização nunca vem associada a essas grandes intervenções. Essa forma está esgotada no sentido de conseguir, realmente, resolver os problemas de escassez de água. E essa cultura persiste". Ela redimensiona: o problema, essencialmente, é de mudança de cultura em relação à gestão da água. "Fortaleza desperdiça 40% da água que chega até aqui. Isso é uma média das capitais
nordestinas, muito alta. É um exemplo da cultura do desperdício".
O uso da água é outra questão. Os números no artigo do cientista político Manuel Domingos, "A persistência da 'solução hidráulica'" (revista Conviver - publicação trimestral encabeçada pelo DNOCS, junho de 2004) delatam: "A agricultura irrigada é uma voraz consumidora de água, respondendo por cerca de 70% do total das derivações de água doce no mundo. A irrigação é responsável por 63,0% da demanda de água no Brasil. O Nordeste, que dispõe de apenas 3% das águas superficiais brasileiras, já é a região que utiliza mais intensamente seu potencial de terras irrigáveis (44%, em 1998, ano que a revista usa para comparação)".
A partir daí, Domingos pondera: "Como falar em desenvolvimento sustentável, incentivando, na região de menor disponibilidade hídrica no Brasil, exatamente a atividade que mais exige água? Uma região com déficit hídrico não pode se tornar, sem graves prejuízos ambientais, exportadora de mercadorias cuja produção demanda grande quantidade de água". "Os métodos de irrigação que existem no Ceará são extremamente consumidores de água - a aspersão, inundação... O método do gotejamento é um dos menos utilizados. Então, enquanto não se muda essa lógica de apropriação da água, não se estabelece uma conduta capaz de garantir a conservação do recurso. Isso fica obscurecido nos debates e tudo fica parecendo que é uma questão de disponibilizar a água. No nosso entendimento, é como se usar. Essa é que é a revolução cultural que o Ceará precisa, que o Nordeste precisa", conclui Soraya Vanini. (Ana Mary C. Cavalcante)
Fonte: Jornal O Povo
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