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"Enquanto a minha vaquinha
Tiver o couro e o osso
E puder com o chocalho
Pendurado no pescoço
Vou ficando por aqui
Que Deus do céu me ajude".
Trecho da música "Último pau-de-arara", de Venâncio, Corumbá e J. Guimarães
No princípio, era o combate. Com o tempo, ruim pra chover, percebeu-se que é melhor se juntar ao inimigo. Assim, do "combate à seca", passa-se a uma "convivência com o semi-árido" (pois não é o sertanejo, antes de tudo, um forte?). É terra a perder de vista: o semi-árido brasileiro é um dos maiores (974.752 km2) e mais populosos (com 24 milhões de pessoas) do mundo; corresponde a 84,48% da região Nordeste (nove estados) mais o Vale do Jequitinhonha (Minas Gerais) e o norte do Espírito Santo - dados da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (www.asabrasil.org.br).
Irregularidades e má distribuição de chuvas são a identidade climática da área. Mas, em se plantando, quase tudo dá. "É possível, desde que se tenha uma ação onde se conheça esse bioma, que é o da caatinga, e se faça uma intervenção nele de modo que possa se sustentar uma atividade ao longo dos anos", afirma o agrônomo e ecologista Marcus Vinícius de Oliveira, coordenador do Programa de Convivência com o Semi-Árido do Esplar-Centro de Pesquisa e Assessoria. "Na medida em que você faz uma agricultura intensiva, uma monocultura, com máquinas pesadas, tratores, tem um problema maior: o de acelerar o processo de degradação ambiental", previne.
As relações com o semi-árido são múltiplas porque são muitas as faces desse sertão. "Quando a gente fala 'semi-árido', está colocando num mesmo nome situações que não são tão semi-áridas assim: o Maciço de Baturité, a Serra da Ibiapaba, a Serra da Meruoca. Por outro lado, tem algumas condições de semi-árido com potencial de serem trabalhadas mais intensivamente, como o Apodi", mapeia Teógenes Sena de Oliveira, professor do Departamento de Solos da UFC. "No semi-árido, há potencial para uma série de produtos agrícolas. A gente está precisando, mesmo, é identificar produtos e sistemas de produção que sejam adaptados às nossas condições. E valorizar o que já tem.
O caju é uma fonte de renda, está adaptado às nossas condições e merece um pouco mais de atenção; o algodão, que no passado já foi muito interessante...", indica. Montar esse quebra-cabeça do semi-árido é também integrá-lo. É se perguntar que peça(s) falta(m). "O que mais tem aqui é açude, canais não sei de quem... O que está em volta desses açudes e canais, como está o uso dessas áreas? Temos limites de irrigação. Temos o Estado pra ser irrigado, mas não temos água. Existem dados na literatura: no Nordeste todo, somente 5% é o máximo de área possível de ser irrigada; o Estado do Ceará dá mais ou menos 2%", atenta o professor.
"Não existe uma solução pronta. Mesmo sendo semi-árido, há diferenças de um município para outro. As tecnologias têm que ser, de fato, bem estudadas do ponto de vista ambiental e social", sinaliza o agrônomo Alessandro Antônio Lopes Nunes (Cáritas CE). Numa convivência que dura 30 anos, diversas experiências feitas pela Cáritas sugerem, por exemplo, as barragens subterrâneas (armazenamento de água no subsolo para a produção de alimentos, inclusive, frutíferas e hortaliças), as cisternas de placa (garantia de água da chuva, no quintal, para consumo humano), os sistemas agroflorestais (cultivo das plantas nativas, a fim de dar segurança alimentar às famílias, e recomposição da mata como forma de reverter a desertificação) e a criação de determinados animais.
"Existe uma série de tecnologias que, se juntarmos todas, dá uma sustentabilidade a esse sistema. Não existe uma tecnologia, única e pronta, que vai ser a salvação de tudo. Onde tem mais facilidade de água, pode trabalhar com piscicultura. A apicultura é outra atividade rentável e ambientalmente limpa. E nossa região é muito rica em pastagens apícolas", sublinha Nunes. (AMCC)
Fonte: Jornal O Povo
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