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"Seu doutô os nordestino têm muita gratidão
Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão
Mas doutô uma esmola a um homem qui é são
Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão".
Trecho da música "Vozes da seca", de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.
"Municípios do Sertão Central decretam calamidade pública", "100 agricultores invadem Tauá em busca de comida", "Perda da safra já chega a 80% na região da Ibiapaba", "Custo da seca pode ser superior a R$ 500 milhões", "Fé em São José e na chegada das chuvas", "'Indústria da seca' sobrevive no Nordeste"... As manchetes dos jornais da Capital, todas notícias de 2005, trazem para perto uma história que é contada desde que o Nordeste é Nordeste.
O pesquisador do Instituto Histórico e Geográfico do Ceará, Thomaz Pompeu Sobrinho, registrou no livro História das Secas (1953) a peleja dos nossos primeiros agricultores na lida com a terra árida: "Os indígenas, para sanar este mal, recorriam a práticas mágicas; e os colonos, igualmente, o faziam, porém disfarçadamente. Desde cedo, pensou o aborígine mais adiantado em construir pequenas represas que conservassem um pouco d´água para o verão".
Previsível do ponto de vista dos estudos climáticos (realizados em universidades e centros de pesquisa) ou da ciência dos profetas da chuva, a seca no Nordeste é - igualmente e desde sempre - "uma questão política". Nas aspas do agrônomo Alessandro Antônio Lopes Nunes, assessor técnico da Cáritas Brasileira (regional Ceará), cabem - no mínimo - 129 anos de inoperância governamental frente ao problema.
Historiadores demarcam o ano de 1877, tempo de mais uma "Grande Seca", como o início de políticas públicas preocupadas com a ausência das chuvas e as levas de retirantes que vinham se abancar na Capital. Começou-se trocando caridade por trabalho, como resumiu a publicação "A seca desenha a cidade" (O Povo, série Fortaleza Revista, 07/05/2006). "Esse período (1877) inaugura a seca da forma como percebemos hoje: o contexto de miséria, migrações, uso da mão-de-obra do retirante, invasões à cidade, corrupção, conflitos e saques", extrai o jornal, dos estudos de Frederico de Castro Neves, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC).
A "política da seca", então batizada, pode ser traduzida pela (ou reduzida à) obtenção de recursos - primeiro, do Império - para socorrer os migrantes e a Capital. Medidas assistencialistas tentam tapar o sol com a peneira e transformam agricultores em peões de obras como ferrovias, açudes e até pavimentação das ruas da cidade. Os retirantes, concentrados em campos como o do Pirambu (sim, depois da seca de 1915, o governo planejou, executou e vigiou a segregação dos flagelados), serviam de atração para os forasteiros, levados àquela paragem exótica.
"O retirante não só ajudou a construir mais rápido alguns projetos urbanos como também assumiu a condição de objeto de consumo para turistas: suas cantorias, seus versos de cordel, seu artesanato e a própria imagem do sertanejo como um dos tipos do Ceará", denuncia a historiadora Kênia Rios, no livro Campos de Concentração no Ceará - Isolamento e Poder na Seca de 1932 (Museu do Ceará, 2004).
Pensava-se (pensa-se) também em uma saída hidráulica. Acentuadamente, a partir da década de 1950, quando foi desenhado o "Polígono das Secas" (uma área de 936.993 km2, sob guarda do Departamento Nacional de Obras contra as Secas - DNOCS), tenta-se barrar rios e buscar água no subsolo. Para quê (ou para quem)? Eis a questão. "A seca, mais que um fenômeno natural, tem raízes políticas e numa cultura privatista de utilização da água. Isso marcou a polêmica de criação de uma infra-estrutura em relação ao fornecimento da água: caso dos açudes públicos que foram construídos em terras privadas", aponta a engenheira de pesca Soraya Vanini Tupinambá, assessora de meio-ambiente do deputado federal João Alfredo (PSOL) e integrante da Frente Cearense por uma Nova Cultura da Água.
O agrônomo Alessandro Nunes também critica o projeto de desenvolvimento modelado pela construção de vistosas obras que desembocam no "agronegócio, nos grandes projetos de irrigação, na carcinicultura, no Porto do Pecém. Todos os projetos pensados de acumulação de água vão para uma fatia específica". Vide o Canal do Trabalhador (aberto em 1993, correndo desde o rio Jaguaribe pelos açudes Pacoti, Riachão, Pacajus, Gavião, Acarape do Meio e Aracoiaba - reservas para a Região Metropolitana de Fortaleza) que, segundo o assessor técnico da Cáritas Brasileira (regional Ceará), "trabalha muito mais para trazer água para esses projetos de irrigação e para a carcinicultura na região do Aracati".
Ele observa ainda, em par com os fortes impactos ambientais, prejuízos sociais para as populações vizinhas dessas obras. E cita uma visita de campo feita em torno da barragem Castanhão, onde as entrevistas com a população de Jaguaribara (283 quilômetros de Fortaleza) relatam a perda das antigas relações de convivência.
Fonte: Jornal O Povo
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