|
O município cearense de Canindé e seus distritos entraram no mapa da região em avançado processo de desertificação do País. Este domingo é o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca.
A madeira da Japuara não dá mais pra fazer uma cerca. A mata nativa está morrendo. O solo castigado aponta sinais bem visíveis de que ali começa um processo degenerativo. Japuara é um distrito de Canindé, no sertão cearense, a 126 quilômetros de Fortaleza. Foi ali que a primeira área para a Reforma Agrária no Brasil foi desapropriada na década de 70, segundo o Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Município. No caminho para Japuara, notam-se as marcas do descaso do homem: a queima da terra, madeira e até cactos.
Além de Irauçuba, na Região Norte do Estado, Canindé e distritos em seu entorno entram no mapa dos territórios em estágio avançado de desertificação. Segundo estimativa do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU), em torno de 16% da área brasileira correm risco de virar desertos ou semi-desertos em 60 anos. Trinta e dois milhões de pessoas (cerca de 18% da população do País) podem ficar sem a terra como meio de sustento.
No Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, neste domingo, 17, o anúncio da ONU é de que o grande território da Região Nordeste, o norte de Minas Gerais e parte do estado do Espírito Santo estão ameaçados por esse processo. Atualmente, cinco áreas do País, incluindo os municípios cearenses, avançam na desertificação: Gilbués, no sul do Piauí; a região do Seridó, localizada entre os estados do Rio Grande do Norte e Paraíba, onde 20 municípios sofrem com os efeitos degenerativos do solo; e Cabrobó, em Pernambuco, com mais 22 municípios castigados.
Acredita-se que sejam necessários entre 200 mil anos (e isso dependendo do solo e do clima) para a renovação de apenas 2,54 centímetros da camada superior do solo degenerado. Os gastos, segundo contabiliza a Organização Não Governamental (ONG) Contas Abertas, ficariam para o Governo federal, em torno de R$ 1 bilhão a serem aplicados nos próximos 13 anos. Em 2003 foi lançado o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação (PAN Brasil) e os gastos foram de apenas R$ 3,5 milhões.
"Usar a lenha ou queimar a madeira para fazer o carvão são ações que comprometem as áreas de Canindé. Mesmo próximo à BR-020 (que corta o município de Canindé) notam-se áreas degradadas", informou o secretário de Políticas Sociais do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Canindé, Alfredo Paz. Ele disse ainda que o papel dos sindicalistas é conscientizar os agricultores fazendo visitas às comunidades, dando palestras e também indo às emissoras de rádio.
"Conscientizamos sobre o não uso dos agrotóxicos e do cultivo do nim indiano, uma planta que é usada como inseticida natural", acrescenta Ailton Soares, secretário de Informação e organização Sindical do STR de Canindé. Ele se refere à colaboração da ONG Esplar (Centro de Pesquisa e Assessoria) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O agrônomo Marcus Vinícius, da Esplar, cita como forma de recuperar os territórios afetados o replantio de árvores, principalmente vegetação nativa, acabando de vez com o desmatamento.
Fonte:OPOVO
Mais
notícias |