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A Comissão Técnica Nacional
de Biossegurança (CTNBio) anda às voltas com a
liberação dos processos de plantação,
comercialização e consumo de cultivares
transgênicos no Brasil. A preocupação dos que
defendem leis restritivas recai agora sobre a ameaça dos
transgênicos ao algodão agroecológico e
orgânico, de modelo de produção fincado na
agricultura familiar. Segundo Pedro Jorge Lima, vinculado à ONG
cearense Centro de Pesquisa e Assessoria (Esplar), essa é uma
ameaça real. O Esplar iniciou há 15 anos uma
experiência de produção de algodão
agroecológico e orgânico no município de
Tauá, apoiando e assessorando a Associação de
Desenvolvimento Comunitário (Adec).
Pelo relato de Pedro Jorge, durante dez anos o algodão
agroecológico padeceu com as dificuldades de
colocação no mercado, "pois nenhuma empresa demonstrava
interesse em estabelecer uma cadeia de forma permanente com volumes de
pluma inferiores a 5 toneladas/ano". A partir de 2004, a empresa
francesa Veja Fair Trade, que atua no comércio justo, "passou a
adquirir o algodão cearense com um contrato de compra de
médio prazo, pagando preços cerca de 100% superiores aos
praticados no mercado convencional". Isso favoreceu a expansão
da produção através de agricultores/as familiares
de mais sete municípios cearenses. Desde lá, já
são 235 agricultores/as que colheram cerca de 42 toneladas de
algodão agroecológico, em sistemas consorciados com
milho, feijão e gergelim. Esses plantios estão sendo
inspecionados para obtenção do selo orgânico de
produção.
O aumento do número de agricultores/as em plantios de
algodão agroecológico é reflexo da demanda
internacional por algodão orgânico, que, segundo Pedro
Jorge, experimentou "crescimento exponencial nos últimos cinco
anos". Mas a demanda ainda é maior que a oferta, tendo aumentado
de 5.720 toneladas em 2000 para 32.326 toneladas em 2005, uma taxa
média anual de crescimento de 93%. Outro movimento observado
é a multiplicação de empresas que atuam no
comércio justo e que direcionam sua ação
"exclusivamente para a produção oriunda de
organizações da agricultura familiar de países em
desenvolvimento". Essas empresas chegam a condicionar a
aquisição do produto à adoção de
práticas que priorizem o desenvolvimento social e
econômico, as relações justas de trabalho e a
manutenção da qualidade ambiental.
É aí que entra a ameaça. Num contexto em que a
produção de algodão
agroecológico/orgânico de base familiar no
semi-árido nordestino experimenta um crescimento sustentado, "a
liberação do cultivo de algodões geneticamente
modificados é uma grave ameaça". Isso porque a
agricultura orgânica não admite, "sob qualquer
hipótese, o emprego de organismos resultantes de transgenia". No
caso do algodão, o que acontece é que "todas as
espécies de algodoeiro encontradas no País são
sexualmente compatíveis e os cruzamentos são mediados por
insetos polinizadores. A presença de lavouras de algodões
transgênicos em locais onde vem crescendo a
produção agroecológica/orgânica é um
risco real e preocupante", pelo risco de contaminação.
Pedro Jorge ainda vai mais longe, ao identificar que, com uma eventual
implantação de lavouras transgênicas, os
produtores/as nordestinos de algodão
agroecológico/orgânico verão "abortada essa
importante retomada da atividade algodoeira, na região, agora em
bases sustentáveis".
Serão centenas de famílias no Nordeste afetadas por essa
reversão, que hoje se dedicam à produção do
algodão agroecológico/orgânico e em bases mais
justas. Basta salientar que em 2007 toda a produção de
algodão desses agricultores/as familiares é vendida em
pluma, com maior valor agregado, "muito diferente do que ocorria em
passado recente, quando a comercialização era
exclusivamente de algodão em rama, vendido a corretores que
repassavam às usinas de beneficiamento". E, nesse caso, todos
nós sabemos onde ficavam os lucros. (85 3252-2410 ou pedrojorge@esplar.org.br)
Fonte:Jornal o Povo - Carderno Ecologia - Edgard Patrício - 09/09/2007
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