|
Nos últimos
dias, o Banco Mundial anunciou um novo empréstimo (US$ 404,04 milhões)
que será feito ao Brasil para reforçar as reservas internacionais
e pagar juros da dívida externa. Segundo o Banco, seu principal
objetivo é apoiar medidas de reforma fiscal do Governo, contribuindo
para a redução da pobreza, como resultado de uma estabilidade
macroeconômica.
Este é o 2º
empréstimo do BIRD ao novo governo, com o mesmo objetivo, segundo
as mesmas condicionalidades (o 1º foi em fins de março, no
valor de US$ 505 milhões) e sujeito à mesma penalidade,
ou seja, retração de financiamentos caso o governo não
mantenha os compromissos assumidos com as reformas.
Essa é a regra
geral da relação estabelecida entre governos de países
em desenvolvimento e Organismos Financeiros Internacionais: a cada 3 meses,
o FMI verifica se o governo está cumprindo, a contento, os termos
do Acordo assinado, sob pena de suspender os desembolsos de financiamento.
Banco Mundial e BID consultam o Fundo antes de aprovar financiamentos.
Preocupa-me que o
governo Lula esteja permitindo que se mantenha e até se aprofunde
o mesmo tipo de relação estabelecida pelo governo anterior
com os bancos internacionais, sem alterar os mecanismos que permitem a
esses bancos uma interferência na nossa política interna,
sem criar mecanismos de controle de suas ações no País,
sem estabelecer limites ao endividamento externo, sem impedir que os orçamentos
nacionais sejam usados para pagamento da dívida externa e sem regular
e fiscalizar a ação de seus representantes nos conselhos
diretores desses bancos.
Preocupam-me os claros
sinais dos Ministros do Presidente sobre as similaridades e consensos
entre a agenda do Governo e as agendas dos Bancos, ao ponto de estarem
hoje, “experts” do Banco Mundial e BID, sendo convidados a
assessorar/compor espaços de discussão e definição
de políticas nacionais, determinando, em última instância,
o direcionamento dos recursos orçamentários do Brasil.
A nova agenda de
Washington, assinada como Reformas de 2ª Geração ou
Reformas Institucionais, se reflete no documento apresentado recentemente
pelo Ministro da Fazenda (Política Econômica e Reformas Estruturais),
cuja ênfase está nas mudanças do desenho institucional
e legal do Estado, para garantir pleno êxito no funcionamento dos
mercados e das políticas públicas.
Essa nova agenda
ou o Pós-Consenso de Washington traz como novidade para redimir
os bancos multilaterais do fracasso exposto publicamente de suas políticas,
a proposição de uma política que una a agenda social
à econômica, vencendo, com essa ilusão, a resistência
de grupos organizados a uma política pró-mercado.
Com essas reformas
que complementam, aprofundam e atualizam as reformas de 1ª geração,
desmontam-se as estruturas sociais e políticas que não correspondem
ou não servem ao livre mercado e ao Estado regulado.
Sob os auspícios
do Banco Mundial, o governo insiste numa insanidade: privilegiar a política
ordenada pelo mercado para depois, com o que sobrar, fazer política
social. Fazendo referência ao “estilo” do Presidente:
é pisar no acelerador e frear ao mesmo tempo. Ou seja, o governo
não pode querer mudar a cara do Brasil e, ao mesmo tempo, dizer
que vai cumprir todos os acordos com as IFMs. É, no mínimo,
subestimar nossa inteligência.
POR ONDE CAMINHA
O PPA.....
Considerado peça-chave do planejamento social e econômico
do governo, o Plano Plurianual já nasce com a espinha dorsal definida
pelas reformas estabelecidas no Programa de Ajuste.
Daí, o chamado
caráter participativo do Plano vira “história das
mil e uma noites”, posto que não se consegue identificar
onde ele se efetiva, muito menos como serão garantidas as propostas
das organizações da sociedade civil, num contexto de franco
alijamento dessas mesmas organizações e do parlamento (um
de seus canais de expressão) sobre que tipo de financiamento queremos,
em que condições e para que.
Assim, o PPA acaba
se tornando refém da política macroeconômica para
países devedores, imposta pelos organismos financeiros multilaterais,
valorizados pelo governo como garantidores de uma “mudança
de modelo com segurança”.
Chamo atenção
ainda, para outro fato: nesse mesmo período, o Banco Mundial e
o BID estão em processo de elaboração de seus planos
estratégicos plurianuais. Como resguardar o PPA de um direcionamento
externo nas suas definições de investimentos públicos?
Nesse cenário,
resta aos movimentos sociais e às organizações da
sociedade civil, estranhos que somos ao centro político do governo,
construir, fortalecer e incentivar espaços sociais mais amplos
de mobilização e pressão, até que nos deixem
ser parte de uma ação, nos deixem opinar, influir, negociar
conflitos, para que a destinação da política favoreça
direitos e não consumo.
Fortaleza, 16 de junho de 2003
Magnólia
Azevedo Said é Presidenta do ESPLAR-Centro de Pesquisa
e Assessoria e Coordenadora Executiva da Rede Brasil
|