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A literatura existente
sobre liderança, ainda que profusa e profícua, está
longe de esgotar o assunto. Os enfoques são os mais variados, tanto
nos compêndios de Sociologia, de Psicologia, como nos de Ciência
Política e de Administração, entre outros.
Não menos
extensa também é a bibliografia existente sobre as organizações,
de todos os tipos, finalidades e tamanhos, num constante evoluir de conceitos
e estratégias operacionais.
Nossa intenção
aqui, longe de pretender fazer um trabalho teórico de fôlego,
é tão somente a de identificar traços importantes
de uma estratégia de gestão – ou de liderança
- (política, inclusive) de grupos em processos de desenvolvimento
institucional, considerando o ambiente interno e externo das organizações,
cada vez mais pressionado pelo acelerado processo globalizado de mudança
social que temos atualmente observado.
Esse processo, se
de um lado está concentrando mais e mais a renda, a propriedade
e a hegemonia do capital financeiro, por outro está gerando um
lento mas profundo processo contra – hegemônico da sociedade
civil, consubstanciado nos fóruns e redes, por sua vez compostos
de organizações que se articulam em cima de consensos mobilizadores,
sem perderem sua autonomia, criando a base para o florescimento do conceito
e da prática da liderança distribuída e da autonomia
articulada, das quais desejamos aqui tratar.
Uma maneira bem simples
e prática de entendermos o conceito de liderança seria,
tanto a de percebê-la como a capacidade que os membros de um grupo
têm de propor – e conseguir - que os demais façam o
que eles propuseram, tanto para a formulação como para o
atendimento dos objetivos do grupo, como a de percebê-la também
como o processo pelo qual essas proposições se constróem
e se executam.
Vale lembrar, já aqui nesse início de abordagem, que, ao
tentarmos formular um conceito, sempre nos valemos de outros conceitos,
na esperança de que o interlocutor, já familiarizado com
eles, possa entender o novo conceito que estamos tentando apresentar.
Aqui estamos desejando
que esse interlocutor tenha o conceito de grupo como sendo a formação
de pessoas que, tendo basicamente as mesmas necessidades, interesses ou
expectativas, tomam a iniciativa de se articularem, em interação,
na consecução de seus objetivos, fixados em comum acordo,
por intuitivamente perceberem que assim poderão melhor vencer as
barreiras que os separam de seus objetivos, podendo ter mais sucesso do
que tentando isoladamente essa consecução...
É também
interessante e oportuno recuperar aqui o conceito de interação,
como sendo a ação recíproca entre os membros do grupo,
formada pelos processos sociais de assimilação, acomodação,
competição e conflito, intra e inter grupal.
A assimilação dar-se-ia quando a pessoa assume inteiramente
para si, se identifica completamente, ou incorpora a idéia ou o
conceito do grupo, ou de outro membro dele. A acomodação
já ocorreria quando a pessoa não concorda inteiramente com
a idéia mas estaria assim mesmo disposta a seguí-la sem
questionar, sem romper com o grupo.
A competição
já implicaria em contrapropor alternativa a iniciativa de outrem
ou continuar defendendo a sua própria, mesmo diante do surgimento
de uma proposta ou comando alternativo ou contrário dentro do grupo.
Chamaríamos
de conflito a uma exacerbação, radicalização
ou intensificação da competição, podendo resultar
daí tanto um salto de qualidade positivo quanto uma cisão
interna ou até mesmo a extinção do grupo.
Continuando esse
”esforço terminológico” vamos tentar consensuar
simplesmente que organização seria tanto o processo como
o resultado da maneira como os grupos se articulam para a consecução
de seus objetivos, interagindo com outras organizações que
também perseguem objetivos, semelhantes ou não aos seus,
conflitantes ou não com os seus.
Para terminar esse
momento conceitual, poderíamos ver o significante na palavra autonomia,
que seria a capacidade de ter energia própria suficiente, ter “alma”
ou “ânimo” para refazer-se, recriar-se e se desenvolver
de moto próprio.
Agora chegamos à
idéia central que queremos desenvolver nesse momento, qual seja
a de demonstrar a necessidade imperiosa atual de politicamente agregar
o adjetivo articulada a essa autonomia. Na verdade, se é bem certo
que precisamos muito preservar, desenvolver, fortalecer, a autonomia das
organizações, não é menos verdade que autonomia
total, enquanto conceito radical puro, na prática, não existe.
Qualquer grupo ou organização, dialética ou até
paradoxalmente, precisa interagir com outros grupos ou organizações
para nesse processo construir ou exercitar a própria identidade,
a própria autonomia.
Na atual conjuntura
político–organizativa onde atuamos, esse processo já
se desenvolve objetivamente. O que precisamos é entendê-lo
e aperfeiçoá-lo.
O PAD – Processo de Articulação e Diálogo,
promovido pelas agências de cooperação ecumênicas
e suas contrapartes, evoluiu com o conceito de desenvolvimento institucional
no sentido de considerar nele contido o desenvolvimento organizacional,
tal o grau de interação aberta hoje existente entre os vários
“níveis internos” da organização diretamente
com seus públicos externos, sem passar necessariamente pelos seus
dirigentes, com uma distribuição crescente de iniciativas
de ação e consequentemente de liderança entre um
número cada vez maior de seus membros. Tal comportamento empodera
e fortalece a organização como um todo, além de,
de quebra, contribuir decisiva e positivamente com o processo - essencial
mas quase sempre descuidado - de sucessão de seus líderes,
maiores ou menores. É claro que também pressupõe
(e viabiliza), uma gestão mais compartilhada, num ambiente (interno
e externo) propício a que seus membros fiquem cada vez mais capacitados
para - e comprometidos com - a missão, a finalidade ou os objetivos
da organização.
O PAD também
produziu o conceito, ainda em evolução, de “campo”
que, longe de não contradizer, reforça essa idéia
e essa prática observada de “interação direta”
entre os projetos, as ações e as pessoas de diversas organizações
componentes (formalmente ou não) desse “campo”. O formalmente
ou não, colocado entre parêntesis, tem um motivo especial:
o de constatar que hoje em dia já está bem desenvolvida
a criação de “campos formais”, quais sejam,
por exemplo, o Projeto Dom Helder Câmara (PDHC), ou o Projeto de
Construção de Um Milhão de Cisternas de Placas (P1MC),
onde várias ONGs, participantes de vários fóruns,
articulações e redes, trabalham juntas nesses (e noutros)
projetos com gestão compartilhada, do governo federal ou de outros,
exercitando a autonomia articulada, nesse “campo” formalizado.
Todo esse processo
é muito rico e, por assim dizer, progressista, democrático,
moderno e com larga dimensão político – profissional,
comportando certamente ainda outros bons adjetivos.
Na verdade, a riqueza
desse processo pode ser ainda mais compreendida e acompanhada se visualizarmos
a organização, digamos, tradicional, elegendo aqui simplificada
e caricaturalmente somente três das suas características
básicas, quais sejam, a de ser autocrática, patriarcal e
paternalista, em contraposição a organização
moderna, de gestão compartilhada, profissionalizada, participativa,
com maior equidade de gênero, e que agora estamos observando que
ela tende a ter cada vez mais um sistema de liderança distribuída.
Embora não
seja objeto específico deste texto, não deixaremos entretanto
de lembrar e relativisar aqui a permanência da necessidade que toda
organização tem de consolidar -ainda que em processo de
equilíbrio dinâmico - o poder de sua liderança, formal
ou não, tanto dentro como fora dela. Isso quer dizer que a disciplina
e a hierarquia, ainda que bem flexíveis, relativizadas e circunstanciadas,
não podem deixar de existir, sob pena da organização
deixar esvair-se sua capacidade de ação eficaz.
Também é
importante considerar que as organizações “reais”
com as quais ainda lidamos hoje, têm dentro delas quase sempre características
ou elementos da organização tradicional (autoritária,
patriarcal e paternalista) combinados (ou conflituados), de diversas formas,
e em diversos níveis, com características das organizações
modernas (gestão compartilhada, profissionalizada, participativa
e com maior equidade de gênero).
Uma boa estratégia
de gestão seria a que promovesse esse processo de evolução
dos elementos ou características predominantes na organização
“tradicional” para os predominantes na organização
“moderna”, como a estamos chamando aqui.
Objetivando
facilitar a visualização dessas características,
apresentamos a seguir um quadro esquemático delas:
| Organização
Tradicional / Conservadora |
Organização
Moderna / Progressista |
| Pesada
e lentas |
Leve e ágil |
| Burocratizada |
Desburocratizada |
| Idéia
de estrutura, “hierarquia”, centralização,
acomodação, inibição, medo, ressentimentos,
machismo, empoderamento dos donos prepostos e pelegos |
Idéia
de rede, articulação, liderança distribuída,
eqüidade de gênero com empoderamento de todas/os |
| Autocrática |
Participativa |
| Paternalista |
Auto gestionária |
| Competitiva e
individualista (centrada no poder pessoal) |
Solidária
e Cooperativa (centrada nos objetivos) |
| Comercialização
(perde – ganha) |
Comercialização
(ganha – ganha) |
| Como
evoluir com as características tradicionais de nossas organizações
e construir novos comportamentos mais adequados à modernidade
democrática? |
Por fim, uma idéia,
uma consígnia, para a “durabilidade”, a permanência
e a sucessão dentro das organizações: manter a essência,
o núcleo, e incorporar a mudança.
A organização precisa manter o essencial de sua missão,
de seus valores, suas crenças, de sua visão compartilhada
de futuro. Numa palavra, de sua utopia. Mas, dialeticamente, precisa incorporar
elementos de mudança da realidade onde atua e de onde se alimenta,
refazendo constantemente sua síntese, na busca perene da sua utopia.
Outubro/2003
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